Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

22/06/2017

Por vezes o declínio é mesmo o declínio, dizem eles. E o que diremos nós?

Não é só a nossa classe política que se vem degradando. Leia-se aqui o que escreve o jornalismo inglês de referência (não, não é de reverência) sobre a classe política deles e em particular sobre os seus líderes:

«IT HAS been impossible to watch the general election without being haunted by a single question-cum-exclamation: surely Britain can do better than this? The best performer in the campaign, Jeremy Corbyn, the Labour leader, is a 68-year-old crypto-communist who has never run anything except his own mouth. Theresa May, the Tory leader, tried to make the election all about herself and then demonstrated that there wasn’t much of a self to make it about. As for Tim Farron, the Liberal Democrats’ leader, he looked more like a schoolboy playing the part of a politician in an end-of-term play than a potential prime minister.

(...)

Yet sometimes decline really is decline. Both Mrs May and Mr Corbyn want to extend the already considerable powers of the government, Mr Corbyn massively so. And both promise to lead Britain out of the European Union, a fiendishly complicated operation. Unfortunately, both candidates have demonstrated that they are the flawed captains of flawed teams. Mrs May broke the first rule of politics: don’t kick your most faithful voters in the teeth for no reason. Mr Corbyn has stood out in part because his team is so mediocre. Diane Abbott, his shadow home secretary, stepped down the day before the election citing ill health, after a succession of disastrous interviews.»

ARTIGO DEFUNTO: Se quisermos saber o que se passou no incêndio de Pedrógão Grande é melhor ler a imprensa espanhola (continuação)

Continuando a demonstração definitiva de como os mídia portugueses estão controlados pelos partidos da geringonça e a maioria dos jornalistas portugueses estão ao seu serviço e aproveitando os links deixados por um leitor neste comentário:


Enquanto omitem os factos que mostram a descoordenação total na resposta do governo ao incêndio, vão enchendo o vazio com as tretas de Marcelo que, à boa maneira de jurista, faz como aquele que, tendo como a única ferramenta um martelo, imagina todos os problemas como pregos, e exorta os órgãos legislativos a ejacularem com urgência resmas de leis para resolver os resultados das más políticas florestais que têm um século e os problemas de descoordenação do governo da geringonça na utilização dos meios, misturando tudo isso num caldo de afectos equívocos engrossado pelo nevoeiro informativo.

E o que dizer do parlamento que numa hora aprovou cinco propostas para reforma florestal que estavam na gaveta há dois meses? Com gente desta só é possível ter um simulacro de democracia, uma democracia asmática.

21/06/2017

Dúvidas (199) - Para que serve a política?

«Os oligarcas não querem que se “faça política” com a tragédia. Mas se não “fizermos política” com a morte evitável de 64 pessoas, para que serve a política? Só para festejar vitórias na Eurovisão?»

Rui Ramos no Observador

ARTIGO DEFUNTO: Se quisermos saber o que se passou no incêndio de Pedrógão Grande é melhor ler a imprensa espanhola

É a demonstração definitiva de como os mídia portugueses estão controlados pelos partidos da geringonça e a maioria dos jornalistas portugueses estão ao seu serviço. Enquanto isso Costa passeia a sua virgindade nos mídia e diz que o problema dos incêndios florestais levará uma década ou mais para resolver. Ninguém lhe pergunta o que ele fez há mais de uma década, enquanto foi entre 2005 e 2007 precisamente ministro de Estado e da Administração Interna de Sócrates, nem se teria sido preciso uma década para evitar a completa descoordenação dos meios existentes ao dispor do governo.

«Enquanto continua o trabalho de extinção, crescente indignação contra as autoridades para notícias que revelam falhas de coordenação graves  nas primeiras horas do fogo. Erros, que de acordo com sobreviventes, pode ter matado dezenas de pessoas.

Para a "rodovia da morte"

Maria de Fátima estava retornando de Coimbra no sábado quando soube que um incêndio afetou a área onde seu pai, um residente de Pedrógão Grande vive. "Quando liguei para me disse que era verdade que o fogo tinha cercado-los completamente e eles estavam em perigo , " ele diz Fátima disse à imprensa portuguesa. "Eu tenho que chegar à cidade e encontrar meu pai, mas quando nós tentamos para deixar a área e tomar o IC8 [a estrada que passa perto da área], a Guarda Nacional Republicana (GNR) ter cortado".

De acordo com Fátima, quando perguntou aos agentes da GNR, por onde deveriam sair da área, disseram-lhe que a Estrada Nacional 236 estava livre de perigo. Ao passar por esta via, no entanto, ela encontrou um cenário apocalíptico.

"A fumaça era tão densa que não se via absolutamente nada, tudo o que ficou para fora eram as chamas por entre as árvores", lembra Fátima. "Nós batemos em algo que estava no meio da estrada, e de repente um carro atrás colidiu com o nosso, e nosso pegou logo fogo. Queríamos sair do carro, mas também o calor era tão intenso que não sabíamos se seríamos capazes de sobreviver lá fora. "

(...)

"Eu não quero ver um político andando por aí, dando condolências. Eles deveriam ter estado aqui quando precisamos deles, eles e a GNR, eu deveria ter cortado as estradas e alertado sobre o que tinha de ser feito. Eles poderiam ter salvo muitas pessoas ...".

Por enquanto, a GNR não esclarece se os agentes espalhados pela na área no sábado cometeram o erro grave de que são acusados, mas o corpo policial prometeu abrir uma investigação para determinar o que falhou nos momentos cruciais.

Falta de informação

Entre os testemunhos de sobreviventes outra queixa frequente é a falta de informação por parte das autoridades, e o pânico que não viveu por não se saber se era necessário evacuar a área ou, caso contrário, esperar por ajuda.»

Excerto de «Los supervivientes del incendio acusan a las autoridades: “Nos arrastraron hacia la muerte”» de El Español

NÓS VISTOS POR ELES: A inoperância na luta contra os incêndios


Para contrariar a nossa tendência congénita para olhar para o umbigo e para a oscilação bipolar entre vermo-nos como o povo eleito e sentirmo-nos uns desgraçadinhos, deveríamos obrigar-nos a ler todos os dias ao pequeno-almoço uma avaliação das nossas obras feita pela estranja.

Para o pequeno-almoço de hoje aqui vai um excerto em portinhol do artigo de opinião com o elucidativo título «La inoperancia de Portugal en la lucha contra los incendios» que o jornal El Mundo publicou sobre os incêndios de Pedrógão Grande:

«Ontem, Portugal foi atingido por um terrível incêndio que causou mais de 60 mortes. É a tragédia com mais mortos em um único fogo em quase um quarto de século no mundo, um facto que revela as dimensões de um evento que revelou a ineficácia e a alarmante falta de recursos do Estado Português para lidar com incêndios florestais. Um flagelo que assola todos os anos com especial virulência o país vizinho, sem que as medidas proporcionadas sejam tomadas para combatê-lo.

A Polícia judiciária portuguesa acredita que uma tempestade eléctrica é a causa mais provável do incêndio, cuja rápida disseminação foi devida a "condições climáticas desfavoráveis", especialmente pela combinação de altas temperaturas e ventos fortes. Dezenas de moradores da região que circunda o município de Pedrógão Grande ficaram presos em um inferno de chamas e muitos deles pereceram queimados em veículos em que estavam tentando fugir. Outros morreram carbonizados em plena rua. As autoridades portuguesas, completamente ultrapassadas, mobilizam mais de 700 efectivos. Um dispositivo claramente insuficiente para controlar, conter e, finalmente, para apagar um incêndio de proporções tão devastadoras.

Não é aceitável que, no século XXI, num país da União Europeia um incêndio florestal possa causar um número tão elevado de mortes. Especialmente tendo em conta a história dos últimos anos. O que mostra este terrível episódio é que, hoje, Portugal não está preparado para lidar com o fogo. Nem tem realizado trabalho preventivo adequado, nem sequer dispõe de um dispositivo ideal para controlar, conter e extinguir incêndios, o que revela não só a ineficácia de suas equipes, mas uma preocupante ausência de meios. A crise e o resgate reduziram significativamente a capacidade de investimento do executivo Português. Mas isto não é razão para ignorar uma ameaça tão séria e preocupante como a do fogo, cujas consequências dramáticas excedem os danos ambientais.»

20/06/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (88)

Outras avarias da geringonça.

O título desta crónica pode induzir o leitor a pensar que aqui em casa se prevê a avaria iminente da geringonça. O que prevejo não é a iminência, é a irreparabilidade que pode levar ainda algum tempo, dependendo de várias circunstâncias. Contra-intuitivamente, uma das circunstâncias é o aumento das intenções de voto no PS que se arrisca a pôr nervosos os comunistas, fazendo-os sentir-se supérfluos, e demasiado excitados os berloquistas. Um bom indicador do nervoso comunista é o aumento de 36% até Abril do número de greves em relação à paz nupcial do mesmo período do ano passado.

Seja como for, como ainda há dias aqui referi, os 44% de intenções de voto nas últimas sondagens devem fazer-nos lembrar os 41% do PS de José Sócrates em Março de 2010 a um ano do resgate.

DIÁRIO DE BORDO: já dei que chegue para o peditório dos incêndios (mas não resisto a dar mais uns trocos)

Ao contrário do que dizem alguns maledicentes, a calamidade resultante do incêndio de Pedrógão Grande não se deve ao governo, nem aos Kamov parados comprados com a ajuda do amigo Lacerda Machado, nem ao engavetamento do Plano Nacional contra Incêndios, nem à ineficácia da protecção civil. Deve-se à trovoada seca e ao aquecimento global. O que devemos ao governo é a prosperidade que atravessamos, prosperidade que os mesmos malecidentes atribuem ao turismo e à conjuntura internacional (para já não falar ao governo anterior).

A sério: é claro que este governo tem culpas no cartório e tem uma enorme falta de vergonha, ajudada pela falta de discernimento dos eleitores, quando procura ter créditos do que não fez e foge com o rabo à seringa do que tem responsabilidades. Contudo, o ponto a que chegámos é o resultado de mais de um século de políticas erradas e incúria. Desde pelo menos 04/09/2005 que venho escrevendo sobre este tema - para não maçar os leitores remeto apenas para o último desses posts - e não vou repetir-me.

Tal como uma dívida de 130% do PIB demoraria décadas a atingir a sustentabilidade e não se paga com afectos, beijinhos, abraços e selfies de Marcelo, nem com as manobras e prestidigitação de Costa, também os incêndios florestais não se resolverão com as mesmas tretas - aliás, parte dos incêndios florestais nunca terá solução e, não, não apenas pelas mudanças climáticas.

Correndo o risco de ser amaldiçoado pelo politicamente correcto e a hipocrisia dominante, faço um prognóstico com elevada probabilidade de se concretizar: a uns dias ou semanas de luto, a donativos de gente generosa e bem intencionada e outra nem por isso, a concertos de solidariedade, seguir-se-ão uns meses ou anos de masturbação teorética, serão produzidas mais ejaculações legislativas, serão criados mais organismos onde poderão ser alojados mais ASPON (assessores de porra nenhuma, como dizem os brasileiros) da família César ou de outras, serão adjudicados mais uns contratos com a assessoria de lacerdas e uns anos e vários milhões de euros depois estaremos mais ou menos no mesmo sítio.

19/06/2017

Mitos (257) - Macron não tem aparelho partidário (actualização)

Neste post de 30 de Abril escrevi:

Depois da esperada vitória de Emmanuel Macron na primeira volta das eleições presidenciais francesas, e da menos esperada completa derrota do candidato socialista Benoît Hamon (que entretanto teria tentado montar uma estratégia «brinquebalante», inspirada no zingarelho de Costa), começou a circular entre a comentadoria doméstica a ideia de que Macron não teria um aparelho partidário e ficaria dependente dos partidos estabelecidos, nomeadamente do PS.

Macron não tem um partido? Ça dépend de ce qu'on entend par parti. O En Marche!, a organização que suporta Macron, tem 250 mil membros, o dobro do Partido Socialista francês. E não esqueçamos a história dos partidos em França, nomeadamente a criação do RPF (Rassemblement du peuple français) a partir do nada, por Charles de Gaulle em 1946, e a refundação por François Miterrand do PS francês no congresso de Épinay em 1971, a partir dos cacos dos grupúsculos de inspiração socialista.

Resultados da 2.ª volta:

L'Express
Os franceses têm uma espécie de novo RPF. Irão agora procurar um novo François Miterrand para refundar o PS francês que em 5 anos que caiu de 280 para 29 deputados?

O politicamente correcto é inimigo da ciência

Há já alguns anos escrevi aqui: as ideologias, em particular os fascismos, como o comunismo, o nazismo, o fundamentalismo islâmico, sem esquecer o politicamente correcto, são inimigas da ciência. Todos os dias temos exemplos disso e ao ler a peça «Onde se meteu a “correcção política”» de Vasco Pulido Valente encontrei mais um.

Como escreve Pulido Valente, tal como a maioria dos portugueses, não li a Bíblia nem senti a necessidade de lê-la e não sei se faço parte da pequena parte dos indígenas que ainda conservam alguma coisa dentro da cabeça pelo que a tradução da Bíblia de Frederico Lourenço talvez não venha a dar-me uma grande ajuda.

Por tudo isso, só confiando na erudição e no discernimento (há boas razões para tal) e na imparcialidade (as razões são menos boas) de Pulido Valente, posso acompanhá-lo na sua conclusão de que a tradução de Frederico Lourenço está irremediavelmente contaminada pelo politicamente correcto ao ponto de traduzir  “Filho do Homem” por “Filho da Humanidade”«por causa da “sensibilidade de género”, que de resto se manifesta pela tradução inteira: onde aparece “homem”, se possível Lourenço escreve “ser humano”, enquanto as mulheres são sempre mulheres. Esta conformidade estúpida ao “politicamente correcto” data e deforma a tradução, além de a tornar inútil para qualquer construção teológica. (...) Falta dizer que na sombra pesa o movimento a favor do sacerdócio das mulheres.»

Sendo assim, Frederico Lourenço é mais um dos que em nome das «boas causas» perverte insidiosamente o seu trabalho. Dirão, no domínio inofensivo da “sensibilidade de género”, destes expedientes não vem mal ao mundo. Mas vem, porque é o reflexo da mesma atitude que legitima a pós-verdade e os factos alternativos que, com outros nomes, é tão velha quanto a humanidade. Com essa atitude e em nome de variadas causas já se exilou, prendeu, queimou, torturou e assassinou.

18/06/2017

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (158) - Zangam-se as comadres...


Tudo começou com Manuel dos Santos, um eurodeputado socialista, a chamar cigana a uma deputada socialista concitando ondas de indignação entre os correligionários, os berloquistas e em geral as hostes do politicamente correcto.

Tal indignação é difícil de entender por um agnóstico como eu, visto que os indignados parecem acreditar não haver razões para considerar a etnia «cigana» inferior ao «homem branco», como se sabe o responsável pelas desgraças de que padece a humanidade. No entanto, não consideram ser ofensivo chamar homem branco a qualquer pessoa, por exemplo a um «cigano».

À frente dos indignados socialistas surgiu o chefe Costa que prontamente insultou Manuel dos Santos apodando-o de «uma vergonha para o PS». Que isto seja uma ofensa é discutível por um agnóstico como eu que tem do PS a ideia que tem.

No dia seguinte, por uma extraordinária coincidência, tornou-se público que Manuel dos Santos há vários meses «tem dois genros a trabalhar para si com verbas do Parlamento Europeu. Ambos residem em Portugal e prestam serviços ao eurodeputado com as verbas disponibilizadas pelo Parlamento Europeu para esse efeito». Menos de 24 horas depois, a notícia propaga-se mais depressa do que a contratação de meia dúzia de criaturas da parentela de César.

Moral da estória, se a estória tivesse moral: zangam-se as comadres descobrem-se as verdades.

Chávez & Chávez, Sucessores (57) - Ponto de situação

Outras obras do chávismo.

Vamos na 11.ª semana consecutiva de manifestações contra o governo socialista do herdeiro de Chávez, durante as quais 70 pessoas foram mortas e vários milhares foram feridas. Além da eliminação das liberdades, Maduro está a destruir o que resta da economia venezuelana que enfrenta uma inflação de três dígitos, a maior recessão do mundo e a falta absoluta de bens essenciais. Entretanto, Maduro pretende acabar com o que resta das instituições legítimas e montar uma assembleia constituinte que aprove uma nova constituição que garanta a perenidade do regime chávista.

Registo que uma das manas Mortágua se distanciou das obras do chávismo escrevendo um artigo com o título ternurento «Venezuela meu amor», talvez inspirado no "Hiroshima Meu Amor" de Marguerite Duras e na devastação que o Little Boy lançada do B-29  Enola Gay infligiu a Hiroshima, devastação que o chávismo está a levar a cabo à escala de um país.

Escreveu Joana Mortágua, dando uma bicada aos comunistas que continuam a incensar o chávismo; «A esquerda de que faço parte nunca foi ambígua sobre a condenação de regimes que oprimem o povo e sufocam a democracia. Isso vale para Angola e para o regime venezuelano. Não sei exactamente qual a esquerda de que faz parte Joana Mortágua, mas não recordo ter o Bloco de Esquerda condenado o regime chávista.

17/06/2017

ARTIGO DEFUNTO: A pobreza das crianças dos países ricos é a riqueza das crianças dos países pobres

Se há coisas que na melhor hipótese se prestam a mal-entendidos, e frequentemente a demagogia, é a pobreza e a riqueza. Como quando se confunde pobreza absoluta com pobreza relativa e se esquece que  o índice de pobreza relativa é muito mais uma medida da desigualdade de distribuição do rendimento do que uma medida da pobreza.

Inevitavelmente, o nevoeiro conceptual presta-se a simplificações demagógicas nos mídia, por vezes até inesperadamente em jornais como o Observador que para noticiar o relatório da UNICEF «The State of the World’s Children 2016: A fair chance for every child« recentemente publicado escolheu o título «20% das crianças em países ricos vivem em pobreza».

Fonte: Rankings by Country of Average Monthly Net Salary (After Tax) (Salaries And Financing)

Sendo considerada em situação de pobreza relativa uma família cujos rendimentos são 60% inferiores ao salário médio nacional, qual é o sentido de comparar uma família pobre nas ilhas Bermudas com um rendimento mensal de 2.700 euros com o de uma família pobre na Venezuela com um rendimento mensal de 17 euros. En passant, note-se que o rendimento médio num território capitalista como as Bermudas (4.638 euros) é 162 vezes maior do que num país socialista como a Venezuela (28,65 euros). Se não quisermos exemplos tão extremos, consideremos dois países europeus como a Suíça (4.420 euros) e a Albânia (260 euros). Se ainda assim for demasiado, compare-se o salário médio da Alemanha (2.158 euros) com o de Portugal (818 euros).

Para citar um livro recente sobre o mau uso das estatísticas, diria que comparar uma criança pobre em Portugal, para não ir mais longe, com uma criança pobre no Uganda, é assim como dizer que os seres humanos têm em média um testículo.

Pro memoria (346) - Estúpido não será. Talvez ignaro

Helena Garrido é uma das jornalistas apreciada aqui no (Im)pertinências e com quem concordamos frequentemente. Também gostaríamos de concordar com o que escreveu aqui e principalmente com a conclusão, mas temos muitas dúvidas:
«O regime está muito mais doente do que parece. Casos como a TAP, Carlos César ou EDP são apenas a ponta do iceberg. Os políticos e a justiça andam a brincar com o fogo. O povo não é estúpido.»
Estúpido não será. Estúpidos são indivíduos, mas não se pode dizer o mesmo dos povos. Mas não teria (e tem ainda) razão Alçada Baptista quando na sua «Peregrinação interior» escreveu «Este povo ignaro e atrasado»?

Como explicar de outro modo, os resultados das últimas sondagens que quase 70% dos portugueses a terem mais confiança em Costa como primeiro-ministro, o PS com quase 44% de intenções de voto e quase 90% dos portugueses a considerem que Marcelo tem actuado bem?

Talvez nos devamos lembrar de Março de 2010, a um ano do resgate e depois dos casos TVI e "Face Oculta" em que Sócrates e o PS estavam mergulhados até ao pescoço, quando no DN se escreveu (a página original desapareceu misteriosamente, mas ainda é possível encontrar a citação no blogue O Jumento);

«Nem os mediáticos casos TVI e "Face Oculta", nem a avaliação negativa dos inquiridos ao desempenho do Governo parecem dados suficientemente fortes para abalar o Partido Socialista. Se hoje se realizassem eleições legislativas, José Sócrates seria reeleito com 41% dos votos. Uma percentagem quase cinco pontos superior ao resultado eleitoral do seu partido em Setembro último.

O PSD, em disputa acesa há meses pela liderança do partido, com Manuela Ferreira de Leite em breve a abandonar o cargo, aparece como a segunda força mais votada (33%), mas a uma distância significativa dos socialistas. Estes são alguns dos resultados de uma sondagem da Universidade Católica para DN, JN, RTP e Antena 1.»

Talvez estas sondagens sejam mais do mesmo e se possam comparar às de 2010.

16/06/2017

Qual destas notícias é falsa?


«Trump oferece asilo político a Alexei Navalny»

Putin himselfie
O do Kremlin, como o de Belém, também gosta de selfies
(com tropa em vez de criancinhas e velhinhas)

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (157) - A César o que é de César


Em comentário ao primeiro post sobre o amigo do Costa, nomeado para a administração da TAP, de quem Fernando Pinto, CEO da TAP há uma eternidade, desde os tempos do estradista Jorge Coelho, diz que «conhece a TAP talvez mais do que eu» (para quem duvida que conheça melhor, recordem-se os tempos de Lacerda na Gebalis que levou a TAP para o Brasil onde perdeu centenas de milhões), um leitor pergunta «E a sobrinha do César?».

Tem o leitor razão, mas não tem toda a razão. A sobrinha é apenas uma das pessoas da parentela de César a quem ele arranjou tenças públicas, como aqui recorda João Miguel Tavares: «Quase todos os familiares directos do líder parlamentar do PS estão em cargos de nomeação ou eleição política. A mulher. O filho. A nora. O irmão. E, agora, a sobrinha, contratada pela Gebalis (empresa municipal de Lisboa) depois de sair da Junta de Freguesia de Alcântara (do PS, claro).»

Esclarecimento a este comentário de um outro leitor sobre «uma interpretação "sui generis" daquilo do "a césar o que é de césar"»:
Os funcionários públicos são empregados do Estado Sucial que dispõe dos empregos. A esquerda em geral e o PS em particular são os donos do Estado Sucial; César é o presidente do PS ergo César é um dos donos do Estado Sucial ergo isso dá a César o direito de dispor do que é de César, em particular dar empregos à família de César. Quod erat demonstrandum.